As potencialidades do Brasil e sua influência na arquitetura hospitalar do século XXI
Foto: Atrium Hospital Albert Einstein Morumbi
Na minha opinião, um projeto começa pelo trabalho multidisciplinar de vários profissionais. Existe uma dependência de outras categorias do conhecimento, ainda mais no projeto de um edifício de saúde. Os sistemas precisam ser integrados para funcionarem plenamente para que a evolução científica e tecnológica flua com rapidez.
Esse mundo da inovação, rico e transformador, infelizmente ainda não é tão incorporado à arquitetura como poderia ser. A cada projeto que faço na área hospitalar preciso ter a evolução tecnológica presente, contínua, constante. Quando há décadas eu imaginava que teríamos um mundo sem fios, não estava equivocado.
![]() Foto: Hospital Mater Dei Contorno |
Será importante abordar como matéria consistente deste início de século as incongruências de nosso desenvolvimento econômico, social e ambiental, nas principais cidades brasileiras.
Há várias questões importantes para superarmos os obstáculos que atravancam o nosso avanço nas soluções de equipamentos urbanos, nas redes aéreas de energia, na solução viária, na maneira de manter a ideia do lote antes na escala da casa agora na escala dos edifícios, na inclusão de espaços, praças e locais públicos, na solução de edifícios de educação e saúde, nas ações do governo e na quebra de paradigmas na produção de novos conhecimentos com rebatimento direto no projeto e na construção de nova arquitetura.
Por estarmos no início deste século vale a pena envidarmos todos os esforços para não perdemos também este importante momento histórico.
Não me preocupa apenas a situação hospitalar, mas a do Brasil como o todo. Acredito que o país tem potencial para reunir entidades e pessoas mais capacitadas e preparadas para construir um Projeto de Nação, que vai influenciar na qualidade de vida e de saúde da população.
A arquitetura contemporânea que constitui uma contribuição cultural significativa deste século e que pratico há quatro décadas, se identifica pela luz, transparência, leveza, evolução tecnológica e por se construir sobre conceitos: concepção multidisciplinar com visões holística e sistêmica; superação de paradigmas conceituais e construtivos da moda adequando-se à cultura de cada época; domínio integral das tecnologias limpas; inovação e utilização evolutiva do conhecimento de base científica; a importância do projeto na explicitação da noção de qualidade e a questão ambiental como parte estrutural do repertório arquitetônico.
Esses predicados que integram um conjunto de conceitos não diferenciam arquitetura hospitalar das demais, é a arquitetura sem adjetivos. A arquitetura hospitalar tem suas peculiaridades, é preciso entender que nisso ela é específica, mas nas citadas conceituações ela tem que servir ao homem em todas as suas necessidades e condições, ou seja, como o edifício vai ser ocupado, de que maneira se garante uma ambiência correta e harmônica entre quem usa e o próprio espaço. O principal referencial da arquitetura é o homem.
A elaboração de que o plano diretor desde o início do projeto é recomendável, pois reúne o conjunto de aspectos que vai definir como será o hospital. Discutir com os médicos, enfermagem, pessoal de serviço, direção do hospital elucidam e contribuem na definição do programa de um adequado projeto. É reconfortante você ouvir de um funcionário que cada coisa está no lugar onde precisa estar e funcionando.
Com um trabalho multidisciplinar que atenda as necessidades de atendimento e assistência médica é possível elaborar um planejamento adequado a atender os anseios de quem vai depender das mesmas.
Foto: Hospital Moriah
Outro aspecto que é preciso explorar ao máximo são as condições climáticas do Brasil, que na minha opinião, são as melhores do mundo. Não temos um inverno rigoroso e as tórridas temperaturas do clima desértico. E por que não explorar sempre que possível essas potencialidades quando fazemos arquitetura?
Por outro lado, a arquitetura deve ter soluções sensíveis e construtivas nas suas variadas tipologias. Ao projetar um hospital, deve-se levar em consideração esses aspectos para fazê-lo mais um exemplo de arquitetura contemporânea, neste século do intelecto e da criação que são fundamentais no transformar e no agir.
Ao pensar um hospital é preciso contar com esses predicados nessa tipologia arquitetônica de condicionantes específicas. Um hospital não deveria se restringir apenas a divisão de unidades funcionais, mas conter uma abordagem mais ampla sobre quais relações ele terá com seu entorno na cidade e quais necessidades regionais ou locais de atendimento mais ocorrentes.
Foto: Hospital Mater Dei de Salvador
Tomo como exemplo o hospital de Ermelino Matarazzo, no extremo leste de São Paulo, que projetamos para a Prefeitura Municipal. Junto com a população local através de inúmeras reuniões definimos para um hospital mais próximo das necessidades da região. A referência deles era o Hospital das Clínicas, que ficava a 30 km de distância. Muitas vezes, no meio do caminho o paciente morria. Nesse sentido organizamos juntos um programa de necessidades que foi plenamente atendido, mesmo procedimento aplicado em Vila Nova Cachoeirinha em 68, ao projetar a Maternidade Escola.
Ao fazer análise da zona leste resultou perceber que aquela região era ausente de hospitais e precisava de atendimento imediato. Em São Paulo a maioria dos hospitais ficava no entorno da avenida Paulista e na época, na área periférica da cidade não existia praticamente nenhum. Implantar o hospital nesse bairro pobre era preciso planejar também a área do entorno do edifício, construção de creche, playground e áreas verdes, incluindo o calçamento das ruas vizinhas.
Nessa época haviam três lugares pesquisados na região metropolitana de São Paulo onde era necessário instalar um novo hospital - em Cotia município da zona oeste, em Santana bairro da zona norte, na zona leste. E foi quando constatamos ser Ermelino Matarazzo o local de um hospital de referência para uma das regiões mais desassistidas em número de leitos por habitante, o que viria a definir a sua escolha.
Foto: Hospital Ermelino Matarazzo
A postura planejadora se preocupa com o lugar e o entorno onde será implantado o hospital. É necessário também analisar as condições morfológicas e topográficas do terreno e a orientação solar do lugar onde será construído. Por esse motivo não se pode achar que só o “design” do edifício resolverá tudo. É necessário um zoneamento correto e a identificação dos locais de permanência curta e prolongada para aproveitarmos ao máximo o clima a fim de atender a todos os setores, inclusive de apoio e serviços. A ventilação que pode ser captada para o interior tem recursos fantásticos, basta saber como orientá-la para atender às necessidades dos usuários nos vários ambientes. Outra preocupação é como ele vai ocorrer nas fases de implantação ou crescimento e quais as necessidades que obrigam à novas soluções para permitir seu correto funcionamento futuro.
A ventilação que pode ser captada para o interior tem recursos fantásticos, basta saber como orientá-la para atender às necessidades dos usuários nos vários ambientes. Outra preocupação é como vai ocorrer as fases de implantação ou crescimento e quais as necessidades que obrigam à novas soluções para permitir seu correto funcionamento futuro.
Outras questões importantes em um hospital são o zoneamento e a setorização funcional, bem como os fluxos. A locação adequada das áreas, colocando-as em local estratégico tais como, áreas de PS (Pronto Socorro), PA (Pronto atendimento) e ambulatórios para que não conflitem com as demais áreas internas do hospital.
Foto: Hospital São Luiz Anália Franco
É igualmente importante o bloqueio de acesso às áreas restritas, como centros cirúrgico e obstétrico, UTI, berçário, setor de imagens, vestiário médico e enfermagem. A setorização correta das áreas de serviços como cozinha, lavanderia, centro de materiais; condicionamento separado de roupa limpa e suja; o lixo hospitalar também não pode ser recolhido e embalado junto com o lixo comum devido ao alto nível de resíduos contaminados ou radioativos; a separação dos elevadores de serviços daqueles utilizados pelos pacientes, equipe médica e visitantes são soluções desejáveis a fim de evitar infecção cruzada.
A arquitetura que venho praticando há cinco décadas, superou já há muito tempo a condição unidimensional da arquitetura moderna. É contemporânea e pluridimensional ao superar a visão moderna integrando a razão científica à sensibilidade artística incorporando luz, transparência, leveza, evolução tecnológica e construídas sobre conceitos:
- Concepção multidisciplinar e com visões holística e sistêmica;
- Superação dos paradigmas conceituais e construtivos da moda adequando-se à cultura de cada época;
- Domínio integral de tecnologias limpas, inovação e a utilização evolutiva do conhecimento de base científica;
- Importância do projeto na explicitação da noção de qualidade;
“Qualidade é a adequação à cultura aos usos e costumes de cada época, ao ambiente no qual a obra se insere, à evolução científica, tecnológica e estética, à satisfação das necessidades econômicas e fisiológicas, direcionadas à razão e à emoção do homem"; - A questão ambiental é parte estrutural do repertório arquitetônico. O que hoje se define como sustentabilidade, explicitamos em um projeto, a casa de Atibaia em 1974, na época definida como ecoeficiente e bioclimática.
A humanização é conseguida e traduzida por ambientes agradáveis, com luz e ventilação naturais, mobiliário ergonômico e confortável e com a máxima integração com o exterior. Quanto mais trouxermos a natureza para os pacientes, mais contribuiremos na sua recuperação. Visuais externos com integração com o ambiente natural é reconfortante em um hospital humanizado e sustentável.
ARQ. SIEGBERT ZANETTINI Prof. Titular FauUsp
Escritório Zanettini Arquitetura – Empresa Associada da ABDEH
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